26 outubro 2011

flesh to flesh

Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço, 
Vejo passar um vôo de ave 
E me entristeço! 

Por que é ligeiro, leve, certo 
No ar de amavio? 
Por que vai sob o céu aberto 
Sem um desvio? 

Por que ter asas simboliza 
A liberdade 
Que a vida nega e a alma precisa? 
Sei que me invade 

Um horror de me ter que cobre 
Como uma cheia 
Meu coração, e entorna sobre 
Minh'alma alheia 

Um desejo, não de ser ave, 
Mas de poder 
Ter não sei quê do vôo suave 
Dentro em meu ser. 

Fernando Pessoa


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